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    January 24

    Príncipezinho

    O PEQUENO PRÍNCIPE

    Antoine de Saint-Exupéry

     

    ***

     

    A LÉON WERTH

     

    Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande. Tenho uma desculpa

    séria: essa pessoa grande é o melhor amigo

    que possuo no mundo. Tenho uma outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo os livros de criança. Tenho ainda uma terceira : essa pessoa

    grande mora na França, e ela tem fome e frio.

    Ela precisa de consolo. Se todas essas desculpas 

    não bastam, eu dedico  então esse livro à criança

    que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas         

    grandes foram um dia crianças. (Mas poucas se    

      

                          A LÉON WERTH

       QUANDO ELE ERA PEQUENINO

     

      Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre

       a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente

        gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma

             fera. Eis a cópia do desenho.

              Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a

      presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem

                            os seis meses da digestão."

                Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz,

       com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho

                              número 1 era assim:

     

    Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.

     

        Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria

    medo?"

    Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então

    o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:

     

    As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado

    os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de

    preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática.

    Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplendida

    carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do

    meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As

     

    pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças,      estar toda hora explicando.

    Tive pois de escolher uma outra profissão e aprendi a

    pilotar       aviões. Voei,    por assim dizer, por todo o mundo.

    E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir,

    num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se

          está perdido na noite.

    Tive assim, no correr da vida, muitos contatos com

    muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes.

    Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum,

             a minha antiga opinião.

     

        Quando encontrava uma que me parecia um pouco

    lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número

    1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela

    era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu não lhe falava nem de

    jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de    

    política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada

    de conhecer um homem tão razoável.    

                                                        

    Vivi portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, até o dia, cerca de seis anos atrás, em

    que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se

    quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico

    ou passageiro, preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte.

    Só dava para oito dias a água que eu tinha.

    Na primeira noite     adormeci pois sobre a areia, a milhas

    e milhas de qualquer terra habitada. Estava mais isolado

    que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar.

    Imaginem então a minha surpresa, quando,    ao despertar do

    dia, uma     vozinha estranha me acordou. Dizia:

    - Por favor ... desenha-me um carneiro

    - Hem!

    - Desenha-me um carneiro ...

    Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei

    os olhos. Olhei bem. E vi um pedacinho de gente inteira-

    mente extraordinário, que me considerava com gravidade.

    Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele.

    Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o

    modelo. Não tenho culpa. Fora desencorajado, aos seis

    anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a desenhar jibóias abertas e fechadas.

    Olhava pois essa aparição com olhos redondos de

    espanto. Não esqueçam que eu me achava a mil milhas de

    qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me

    parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de

    fome, de sede ou de medo. Não tinha absolutamente a

    aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas

    da região habitada. Quando pude enfim articular palavra,

    perguntei-lhe:

    - Mas ... que fazes aqui?

    E ele repetiu-me então, brandamente, como uma coisa

    muito séria:

                                              

     - Por favor... desenha-me um carneiro ...

    Quando o mistério é muito impressionante, a gente não

    ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo

    de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta.

    Mas lembrei-me,então,que eu havia estudado de preferência geografia, história, cálculo e gramática, e disse ao garoto

    (com um pouco de mau humor) que eu não sabia desenhar.

    Respondeu-me: 

    - Não tem importância. Desenha-me um carneiro.

    Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz 

    para ele um dos dois únicos desenhos que 

    sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir   o garoto replicar:

    - Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro.   Desenha-me um carneiro.

    Então eu desenhei.    

        Olhou atentamente, e disse: 

        - Não! Esse já está muito doente.

    Desenha outro.

    Desenhei de novo.

    Meu amigo   sorriu com indulgência:

    - Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode ... Olha os chifres ... 

    Fiz mais uma vez o desenho.

    Mas ele foi recusado como os precedentes:

    Este aí é muito velho. Quero um

    carneiro que viva muito.

    Então, perdendo a paciência, como

    tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.

    E arrisquei:

    Esta é a    caixa. O carneiro    está dentro.

    Mas fiquei surpreso de 

    ver iluminar-se    a face do meu

    pequeno juiz: 

     

    - Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito

    capim para esse carneiro? 

    Por quê? 

    Porque é muito pequeno onde eu moro ...

    - Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de

    nada ! 

    Inclinou a cabeça sobre o desenho: 

    - Não é tão pequeno assim ... Olha ! Adormeceu ...

    E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia,

    com o pequeno príncipe. 

     

    Levei muito tempo para compreender de onde viera.

    O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, não

    parecia sequer escutar as minhas. Palavras pronunciadas

    ao acaso e que foram, pouco a pouco, revelando tudo. Assim, quando viu pela primeira vez meu avião    (não vou desenhá-lo

    aqui, é muito complicado para mim), perguntou-me bruscamente:

    Que coisa é aquela? 

     

     Não, é uma coisa. Aquilo voa. É 

    um avião. O meu avião.

    Eu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava. Então ele exclamou:

    - Como? Tu caíste do céu?

    - Sim, disse eu modestamente.

    - Ah ! como é engraçado...

     

      E o principezinho deu uma bela risada, que me irritou profundamente. Gosto que levem a sério as minhas

    desgraças. Em seguida acrescentou: 

    Então, tu também vens do céu   ! De que planeta

    és tu?

    Vislumbrei um clarão no mistério da sua presença, e

    interroguei bruscamente:

    - Tu vens então de outro Planeta?

    Mas ele não me respondeu. Balançava lentamente a

    cabeça considerando o avião:

    - É verdade que, nisto aí, não podes ter vindo de

    longe ...

    Mergulhou então num pensamento que durou muito

    tempo. Depois, tirando do bolso o meu carneiro, ficou contemplando o seu tesouro.

     

    Poderão imaginar que eu ficara intrigado com aquela

    semiconfidência sobre "os outros planetas". Esforcei-me,

    então, por saber mais um pouco.

    - De onde vens, meu bem? Onde é tua casa? Para

    onde queres levar meu carneiro?

    Ficou meditando em silêncio, e respondeu depois:

    O bom é que a caixa que me deste poderá, de noite,

    servir de casa.

    - Sem dúvida. E se tu fores bonzinho, darei também

    uma corda para amarrá-lo durante o dia. E uma estaca.

    A proposta pareceu chocá-lo:

    Amarrar? Que idéia esquisita

     

    - Mas se tu não o amarras, ele vai-se embora e

    se perde...

    E meu amigo deu uma nova risada:

    - Mas onde queres que ele vá?

    - Não sei ... Por aí ... Andando sempre para frente.

    Então o princípezínho observou, muito sério:

    - Não faz mal, é tão pequeno onde moro !

    E depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda:

    - Quando a gente anda sempre para frente, não pode

    mesmo ir longe ...