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January 24 PríncipezinhoO PEQUENO PRÍNCIPE Antoine de Saint-Exupéry
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A LÉON WERTH
Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa séria: essa pessoa grande é o melhor amigo que possuo no mundo. Tenho uma outra desculpa: essa pessoa grande mora na França, e ela tem fome e frio. Ela precisa de consolo. Se todas essas desculpas não bastam, eu dedico que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. (Mas poucas se
Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.
medo?" Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:
As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplendida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As
pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é Tive pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se Tive assim, no correr da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum,
lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável. Vivi portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, até o dia, cerca de seis anos atrás, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico ou passageiro, preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte. Só dava para oito dias a água que eu tinha. Na primeira noite e milhas de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar. Imaginem então a minha surpresa, quando, dia, uma - Por favor ... desenha-me um carneiro - Hem! - Desenha-me um carneiro ... Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um pedacinho de gente inteira- mente extraordinário, que me considerava com gravidade. Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele. Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. Não tenho culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a desenhar jibóias abertas e fechadas. Olhava pois essa aparição com olhos redondos de espanto. Não esqueçam que eu me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não tinha absolutamente a aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas da região habitada. Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe: - Mas ... que fazes aqui? E ele repetiu-me então, brandamente, como uma coisa muito séria: - Por favor... desenha-me um carneiro ... Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta. Mas lembrei-me,então,que eu havia estudado de preferência geografia, história, cálculo e gramática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu não sabia desenhar. Respondeu-me: - Não tem importância. Desenha-me um carneiro. Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois únicos desenhos que sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir - Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro. Então eu desenhei. Desenha outro. Desenhei de novo. Meu amigo - Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode ... Olha os chifres ... Fiz mais uma vez o desenho. Mas ele foi recusado como os precedentes: Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito. Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado. E arrisquei: Esta é a Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se pequeno juiz:
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro? Por quê? Porque é muito pequeno onde eu moro ... - Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada ! Inclinou a cabeça sobre o desenho: - Não é tão pequeno assim ... Olha ! Adormeceu ... E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.
Levei muito tempo para compreender de onde viera. O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, não parecia sequer escutar as minhas. Palavras pronunciadas ao acaso e que foram, pouco a pouco, revelando tudo. Assim, quando viu pela primeira vez meu avião aqui, é muito complicado para mim), perguntou-me bruscamente: Que coisa é aquela?
Não, é uma coisa. Aquilo voa. É um avião. O meu avião. Eu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava. Então ele exclamou: - Como? Tu caíste do céu? - Sim, disse eu modestamente. - Ah ! como é engraçado...
desgraças. Em seguida acrescentou: Então, tu também vens do céu és tu? Vislumbrei um clarão no mistério da sua presença, e interroguei bruscamente: - Tu vens então de outro Planeta? Mas ele não me respondeu. Balançava lentamente a cabeça considerando o avião: - É verdade que, nisto aí, não podes ter vindo de longe ... Mergulhou então num pensamento que durou muito tempo. Depois, tirando do bolso o meu carneiro, ficou contemplando o seu tesouro.
Poderão imaginar que eu ficara intrigado com aquela semiconfidência sobre "os outros planetas". Esforcei-me, então, por saber mais um pouco. - De onde vens, meu bem? Onde é tua casa? Para onde queres levar meu carneiro? Ficou meditando em silêncio, e respondeu depois: O bom é que a caixa que me deste poderá, de noite, servir de casa. - Sem dúvida. E se tu fores bonzinho, darei também uma corda para amarrá-lo durante o dia. E uma estaca. A proposta pareceu chocá-lo: Amarrar? Que idéia esquisita
- Mas se tu não o amarras, ele vai-se embora e se perde... E meu amigo deu uma nova risada: - Mas onde queres que ele vá? - Não sei ... Por aí ... Andando sempre para frente. Então o princípezínho observou, muito sério: - Não faz mal, é tão pequeno onde moro ! E depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda: - Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe ... |
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